segunda-feira, 4 de maio de 2009

Pedras

Como nem só de poesia se vive nessa terra, chegaram finalmente as férias e uma viagem de uma semana pra passear. Para hoje ficou programado no blogger a postagem deste texto e, para sábado, um poema em homenagem ao dia das mães.
Assim que voltar de viagem, eu respondo aos comentários, a não ser que haja internet no hotel e, naturalmente, tempo livre pra isso, o que vai ser difícil ... rssss
Nordeste, aí vamos nós ...



“Como foi que ele chegou até lá?” – perguntava-se o tempo todo, enquanto tomava um pouco de fôlego para tentar alcançá-lo. Mesmo parecendo estar perto, aqueles poucos metros tinham a cara de verdadeiros quilômetros de distância. Olhou novamente para ele, sentado ali, mais adiante, impávido, totalmente isolado do mundo. Respirou fundo, criou coragem e resolveu continuar a escalada.
Não que fosse íngreme, mas era extremamente acidentada. As mãos já apresentavam pequenos cortes feitos pelas pedras, conseqüência da busca de apoio para equilibrar-se. Também tinha uns arranhões junto às canelas, expostas por calçar o tênis sem as meias. Faltava pouco. Pensou em chamá-lo para ajudá-la nos metros finais, mas achou que não era bom interrompê-lo na sua concentração. Finalmente, depois de muito esforço, chegou até ele, sentando-se no pequeno platô natural onde estava sentado.
Era meio apertado ali para os dois. Tentou se espremer ao lado dele, mas viu que não iria conseguir.
- Pode encostar, não tem problema. – ele soltou, despretensiosamente.
- Ah, você ainda fala! – replicou, arfando.
Ele voltou a ficar quieto.
- Não tinha um lugar mais fácil pra você ancorar, não?
- ?
- É, tinha que ser no meio dessas pedras?
- Gosto daqui!
Ela olhou para o mar, beijando suavemente as pedras no sopé do morro. Sabia o quanto ele gostava dali. “É, a vista continua linda!” – observou, olhando a paisagem em volta.
- Além do mais, só vem aqui quem gosta.
- E isso é bom? – provocou.
- Ao menos, você fica bem acompanhado.
Ela soltou um gracejo, corando um pouco. Abaixou a cabeça, olhou os tornozelos marcados, depois observou as próprias mãos.
- Tô toda machucada! – soltou, ainda observando-se.
Ele pegou suas mãos, beijou-as carinhosamente.
- Melhorou?
Ela olhou para ele, balançou a cabeça como se estivesse desaprovando sem desaprovar.
- Você não toma jeito mesmo ...
Alex girou a cabeça lentamente, olhou fixamente no rosto dela, esboçou um sorriso.
- Você está mais bonita do que antigamente.
Ela corou novamente.
- Não vai parar com esses “torpedos”, não?
Ele levou a mão até os seus cabelos, embaraçados pelo vento e pela maresia.
- Tô falando sério, está mais bonita mesmo. Uma beleza ... madura.
Acariciou um pouco mais os cabelos dela, recolhendo sua mão em seguida. Abraçou as próprias pernas, dobradas diante do tronco, pés apoiados sobre o platô. Voltou a olhar para o mar, calmo, tranqüilo, brincando de ir e vir em direção ao morro.
Dani começou a trazer o passado de volta, puxando do fundo da memória as cenas de tanto tempo atrás. Lembrava claramente da primeira vez que foram ali. Era um final de tarde, o sol já estava fraco e aquele menino de jeito tímido tivera um lampejo de extroversão e a convidara para ir a um lugar diferente. Deixaram os outros para trás, tocando violão na praia, diante da fogueira que serviria para iluminar o luau. Caminharam em direção às pedras, começaram a subir, seguindo por uma espécie de trilha que havia por ali. Ele na frente, mão dada com a dela, servindo de guia, passo firme, típico de alguém que sabia o caminho a seguir. Andaram por quase dez minutos, até chegarem àquele platô, o mesmo onde se encontravam agora.
Ele lhe contou de quantas e tantas vezes que estivera ali, isolando-se do mundo, penetrando em seu próprio mundo interior, seus mais íntimos pensamentos, sonhos, imagens, tudo regado por aquela paisagem maravilhosa.
Lembrava do sol se indo, descendo e deixando a noite chegar, a lua cheia no céu limpo e estrelado, iluminando as águas num reflexo que parecia desenhar uma trilha em pleno oceano. Jamais esqueceria aquela noite!
Ficaram ali, conversando pausadamente, com uma fluência que nunca imaginara ele pudesse ser capaz de mostrar, abrindo-se com uma naturalidade inesperada para alguém tão introvertido, fechado. E ouviu, naquela noite, todos os sonhos daquele rapaz quieto, seus pensamentos verdadeiros, seus desejos que se foram revelando um a um, culminando num último e inesperado segredo, a paixão que sentia por ela.
Seus olhos continuavam fixos no mar, enquanto a cabeça passava em moto-contínuo o pretérito em forma de filme. Expressou um leve sorriso ao lembrar da loucura de se amarem ali, ao ar livre, expostos, descompromissados com o mundo, “coisas da idade” – pensou, correndo o risco de serem pegos por qualquer pessoa que resolvesse tomar o mesmo caminho. Mas como foi bom! Simplesmente inesquecível!
Virou seu rosto, olhando para o de Alex, ali ao seu lado, tão próximo, tão distante. Voltou seus pensamentos ao passado: jamais esqueceria aquela noite, não tinha como. Fizeram amor uma, duas, três vezes, debaixo daquela lua, ouvindo o barulho do mar e o silêncio da imensidão. Totalmente insanos!
Voltaram para a praia depois de várias horas, procurando os amigos que talvez ainda estivessem lá. A festa seguia firme, mal deram pela falta deles. Poucos perceberam que o olhar de ambos mudara, as mãos dadas que assim ficaram pela madrugada afora, a namoro que começou da forma mais intensa possível.
- Você lembra ... – esboçando uma pergunta, que foi abortada.
Alex saiu do transe e olhou para ela.
- Claro que eu lembro! Como poderia esquecer?
Ela riu da pergunta idiota que iria fazer. Nem se espantou com a resposta, apesar da pergunta inacabada.
- É claro que você lembra! – repetiu. – Como a gente poderia esquecer uma noite como aquela?
Ele segurou novamente nas mãos dela. Estavam ásperas, ao contrário de como normalmente se apresentavam.
- Nós fomos muito loucos! Deliciosamente loucos!
- E eu pensava que você era tímido!
- Eu sou tímido – replicou.
Ela olhou para ele, passeando o olhar pelo rosto que já não apresentava mais os traços de menino. Mas não trazia muitas das marcas que a idade costuma trazer.
- Você também ficou mais bonito.
Ela riu.
- Que foi? – fazendo cara de curiosidade.
- Não vai ficar bravo?
- ?
- É que, na realidade, você não ficou MAIS bonito. Você ficou ... bonito.
- Eu era tão feio assim? – fazendo careta.
- Não, não foi isso que eu quis dizer.
Riu de novo.
- É que ... não era essa beleza de traços que chamava a atenção em você. Era ...
- ...
- ... era o jeito, tão sereno, tão tranqüilo ... passava uma sensação de segurança, algo assim.
Ele permaneceu olhando para ela.
- Mulheres prezam muito essa sensação de segurança. Acho que somos muito inseguras, em geral.
Ele mexeu as sobrancelhas, ressaltando-as.
- Eu sou muito insegura, sempre fui. Minhas amigas sempre pegaram no meu pé por causa disso.
Voltou-se novamente para o mar.
- Mas elas não eram muito diferentes, apenas fingiam melhor do que eu.
Alex riu.
- E depois vocês dizem que nós é que escondemos os sentimentos!
- É ... a gente vive se contradizendo nessa vida!
Olharam para o mar, ao mesmo tempo. Uma onda maior resolveu agitar o oceano, batendo com um pouco mais de força nas pedras. Mas não dava para respingar onde se encontravam.
- Você não ficou preocupada de engravidar? Ou pegar alguma doença?
- !
- É, quando a gente fez aquela ... loucura!
- Ah, entendi! Doença não, jamais conseguiria imaginar que você pudesse não se cuidar.
- ?
- Seu jeito, tudo em você. É o que eu falei: você me passava muita segurança, o que talvez tenha sido perigoso.
- Por que?
- Porque você se desarma, o que nem sempre é bom.
Ele concordou com a cabeça.
- Mas a possibilidade de gravidez mexeu comigo.
- E o que você fez? – curioso.
- Conversei com uma amiga mais velha, mais experiente. Ela me repreendeu, mas recomendou que eu tomasse uma pílula específica para ocasiões como aquela.
- Amiga?
- É, uma amiga! Por quê?
- Você contou pra sua mãe, não foi?
Dani arregalou os olhos, totalmente surpresa.
- Como ... como você sabe disso?
- Você era carne e unha com a sua mãe.
Ela continuava estupefata.
- E sua mãe era uma pessoa maravilhosa, muito gente, apesar de ser mãe.
- Você sabia disso esse tempo todo?
- Não, não sabia.
- Mas falou com tanta certeza ...
- Desconfiava.
Dani já havia voltado ao normal. Afastou-se um pouco, dentro do que o espaço permitia, ficando quase de frente para ele.
- E você? – expressando curiosidade.
- Eu o que?
- Você contou pra quem?
- Contei o que?
- Vai, pare de se fazer de desentendido. Para quem você contou o que a gente fez naquela noite?
- Pra ninguém.
- Alex, Alex, você nunca foi mentiroso, não vai começar agora, vai?
- É verdade, não contei pra ninguém.
- Nenhum homem manteria um segredo desses intacto.
- Vai ver, eu sou gay! – afeminando a voz e quebrando o pulso.
Ela riu da graça.
- Não acredito. Não contou mesmo?
- Não, nunca.
Ela parecia convencida de que ele falava a verdade.
- Deve ter guardado para você, mesmo. Aliás, você nunca foi muito esteriotipável como a maioria dos homens.
- Não é isso, apenas guardei. Nunca vi assim algum ... motivo para contar para alguém. Só isso.
Continuaram trocando carícias com as mãos.
- Por quanto tempo a gente ficou junto? – ele perguntou.
- Total?
- É, ao todo.
- Deixe-me ver: namoro, casamento ... uns oito anos, arredondando.
- A vida da gente tem umas coisas engraçadas, não?
- ?
- Você conhece alguém, começa a gostar, se envolve, cada vez mais, casa, vive debaixo do mesmo teto, sem maiores problemas, sem maiores atritos e, de repente, parece que nada daquilo mais tem sentido, aquela pessoa já não te diz mais muita coisa, o relacionamento esfria, se afastam um do outro e ... acaba. Assim como começou. Do nada!
- É, mas nem sempre é assim. Normalmente, acaba pelo desgaste, pelas brigas, pelas diferenças que vão ficando cada vez mais nítidas.
- Eu sei, isso é o mais comum. Mas veja a gente: nós sempre nos demos bem, não tínhamos muitas discussões ou diferenças, sempre gostamos um do outro ...
- Mas não tínhamos nada que fosse mais ... intenso. Não havia um grande amor, uma grande paixão, uma grande cumplicidade, um grande vínculo ...
- ... só uma grande amizade e um grande carinho!
- É, é mais ou menos por aí.
- E um grande começo ...
- ... não provoca que eu adoro “vale a pena ver de novo”!
- Aquele da TV?
- É, por quê?
- Bom, já achei uma grande diferença entre nós, então.
Ambos riram.
- Você não é muito de rir, não, Alex?
- Só um pouco.
Soltou uma de suas mãos, fez um carinho leve no rosto dele.
- Talvez a gente tenha exacerbado um pouco a nossa amizade, transformando-a em casamento.
- ?
- No fundo, o que nós realmente sempre fomos foi isso: grandes amigos.
- Mas era tão bom estar com você ... – respondeu Dani, fazendo uma voz dengosa.
- Eu também gostava da sua companhia ... como ainda gosto. Mas não havia algo que realmente segurasse a gente como um casal. Faltava ... algo a mais.
- Eu entendo ... sei o que você quer dizer. E se não houve desgaste, faltou ... combustível.
Alex sorriu para ela.
- Você realmente está muito bonita. Se eu fosse teu marido, morreria de ciúmes!
- Meu marido morre de ciúmes, menos quando se trata de você.
- É mesmo? – ironizou.
- Deixa de ser bobo. Ele é teu melhor amigo, seu tonto!
Alex gracejou levemente.
- E ele guardou todo esse amor dentro dele por todo esse tempo, esperando por você.
- E me conquistou!
- Ah, isso é fácil. Até eu já consegui!
- Bobo.
- Você gosta dele, não?
- Gosto, gosto muito. Foi uma coisa assim, surpreendente. De repente, a gente descobre um sentimento que tava lá escondido e ... lá se vão dois anos quase.
Ele soltou a mão dela, apoiou-se no chão de pedras e levantou-se. Deu uma espreguiçada, precisava alongar-se um pouco. Estendeu a mão para ela, ajudou-a a erguer-se também. Aproximou-se mais ainda, abraçou-a, tronco contra tronco, encurvou-se um pouco, apoiou o queixo no ombro dela.
- E você, como está de namoro?
- Estava bem, até agora.
- Vocês brigaram? – surpresa.
- Não, mas vamos brigar.
- Por quê?
- Porque ela está vendo a gente abraçado.
- Onde ela está?
- Ali mais em baixo na lancha, na enseada.
Desabraçaram-se.
- Ah, essas moças de hoje, tão imaturas ...
- Até parece que só as mais novas são ciumentas! Vocês são todas umas possessivas!
- E vocês vivem dando motivo ...
- Bom, deixa pra lá ... vamos descer que está na hora de ouvir bronca.
- Quem mandou correr atrás de menininha! Agora agüenta.
- Acho que vou convidá-la pra vir aqui, quando anoitecer.
Dani olhou pra ele, furiosa:
- Se você transar com ela aqui, eu te mato!
Alex riu, enquanto ela continuava olhando para ele, fuzilando com os olhos.
- “Moças” imaturas?


"Pedras" é um dos textos do livro Flagra.

8 comentários:

Avassaladora disse...

Nos deixa um belo conto/texto...

E lá se vai a cata de sombra e água de côco!

Aproveite!!!

Que volte cheio de inspiração!

Beijos!

BANDEIRAS disse...

Olá, Prazer !
Me chamo Nilda, do blog Bandeiras, encontrei teu link lá em Rebeca e Jota Cê.
Muito bom aqui, estou lendo...
Esse texto está muito legal
Férias é tudo de bom mesmo !

Vou voltar mais vezes por aqui.

Foi um prazer,

Bjs

Menina Robô disse...

E volte cheia de histórias para nos contar... =D

ahh deixa eu ir na sua mala?
afinal sou um Robôzinho hihihi

Bjokas =*

Kariny

A Senhora disse...

Adorei... :) Já conhecia e já tinha achado uma delícia no livro. Agora, mais ainda.

beijinhos e não se queima muito nessas férias!

Desejos Aliciantes disse...

Me deixa um belo texto e uma inveja enorme (inveja boa tá)
ai que delícia viajar
aproveite bem...
desejo que vc não tenha tempo mesmo...rsrs

beijos aliciantes na alma!

Poisongirl disse...

Gente bem resolvida é o que há de bom!
Nordeste meu bem?!... e eu afundando nos livros ai ai...

Késia Maximiano disse...

E q bom gosto!
:D
Beijo

Sayuri disse...

Monday, é lindo o teu texto!
Como faço para ter um livro teu autografado? :)

Boas férias! (inveja...da boa!)